Há tempos,
ouve-se dizer que o arranjo de rochas ornamentais precisa de projetos
concretos que fomentem o setor, movimentem a cadeia e tragam resultados
positivos. Há tempos, também as instituições
do arranjo, como Cetemag, Cetem, Sindirochas e demais entidades
co-irmãs, apresentam projetos que têm justamente essa
proposta: impactar positivamente a cadeia de rochas.
Assim como nos anos anteriores, muitos projetos surgiram em 2008,
mas poucos conseguiram sair do papel. Por que será que é
tão difícil colocar essas idéias na prática?
De acordo com o superintendente do Cetemag, Herman Krüger,
a entidade tenta, a todo custo, aprovar seus projetos em editais
públicos, mas essa não é uma tarefa fácil.
“Desde que assumi a superintendência do Cetemag ouço
as pessoas falando que existem recursos federais e estaduais para
o arranjo de rochas e o que falta são bons projetos. Isso
é estranho, uma vez que preparamos bons projetos, que atendem
às necessidades do setor, mas que até hoje não
conseguiram aprovação”, explica Herman.
Um dos grandes questionamentos dos empresários, entidades,
autarquias, bancos e governo, que operam paralelamente junto ao
setor de rochas, é a falta de articulação junto
aos especificadores (arquitetos, designers, engenheiros e construção
civil como um todo). Todos afirmam que já passou da hora
de haver uma sintonia entre esses agentes e o setor.
Esses projetos custam muito dinheiro e não conseguirão
se desenvolver se não forem acolhidos e não tiveram
a devida atenção tanto de empresários quanto
do governo. O objetivo é aproximar quem especifica o uso
dos materiais nas obras, criando manuais de especificação
e aplicação, apresentando a cadeia produtiva de rochas,
seus materiais, especificações, onde e como devem
ser utilizadas, estimulando maior utilização. Atualmente,
ela não chega a 5% dos revestimentos consumidos no setor
da construção no Brasil.
Outra alternativa é que, paralelamente, as empresas que fabricam
os insumos utilizados na aplicação das rochas –
seja em pisos, bancadas, revestimentos internos e externos –
trabalhem melhor a sua usabilidade com os especificadores. As resinas,
argamassas, isolantes, inserts metálicos que existem hoje
são os mais adequados? Podem ser melhorados? Os técnicos
da construção civil, junto com engenheiros e arquitetos,
realmente estão preparados para utilizar esses insumos? As
técnicas aplicadas no Brasil são as mais adequadas
quando comparamos à Europa, que usa rochas a mais de dois
mil anos?
Herman afirma que é necessária maior interação
técnica por parte das empresas fabricantes junto aos produtores
de rochas e especificadores. “A indústria de Cerâmica,
carpete e tintas, por exemplo, em relação a seus problemas,
encontra-se anos a frente das demandas do setor quando discutimos
esse problema”.
Um dos projetos é a “Maratona de Palestra para Especificadores”
na Casa Cor ES, idéia apresentada pelo designer Ludson Zampirolli,
para levar informações a esse público específico.
Ele ainda não saiu do papel porque faltam patrocinadores
e editais em que se enquadre, para conseguir verba.
Outro exemplo aconteceu na última edição da
Cachoeiro Stone Fair, realizada em agosto. Foi montado o Pavilhão
do Mármore para mostrar a profissionais de arquitetura selecionados
de todo o Brasil a dimensão da cadeia produtiva de rochas
e o que pode ser feito com seus materiais.
O pavilhão foi montado com recursos da Milanez Milaneze e
apoio não-financeiro de poucas empresas. O Bandes subsidiou
R$ 20 mil e outras instituições e Governo não
se manifestaram em relação ao projeto que, em geral,
é cobrado por elas mesmas. A ação poderia alcançar
resultados expressivos e fazer parte de uma ação continua,
recebendo especificadores de todo país, contudo, os investimentos
não foram suficientes.
Esta ação é tida como prioritária dentro
do setor, principalmente pelo Cetemag e Sindirochas. Mas o presidente
do Cetemag, Emic Malacarne Costa, afirma, embora se proclame a existência
de fundos e recursos, até o momento, mesmo com toda a mobilização,
não se consegue nenhum investimento. “As instituições
fazem a parte delas conseguindo boa parte do valor necessário
com os empresários, mas falta o setor público cumprir
a sua função nestes casos”, desabafa.
Análise do Ciclo de Vida
Um exemplo claro de como até mesmo os melhores projetos não
conseguem verba é a Análise do Ciclo de Vida das Rochas
Ornamentais (ACV). Em setembro de 2007, o designer Ludson Zampirolli,
em reunião com o superintendente Herman e com o diretor-executivo
da Aamol, Nelsimar Bastos, apresentou a idéia e, desde então,
uma batalha tem sido travada para executá-lo.
“Desde o início, enxergamos a preciosidade do ACV.
Como a magnitude do projeto vai além do Cetemag, entramos
em contato com o Cetem, através da pesquisadora Mônica
Castoldi Borlini, e do coordenador do Campus Avançado, Adriano
Caranassios, que também entenderam o projeto e aceitaram
fazer parte dele. A idéia foi apresentada ao Sebrae, que
liberou um consultor para monta-lo conosco”, contou Herman.
Em 30 dias o projeto foi montado, quatro empresas foram convocadas
e ele foi enviado para o Finep, através da chamada pública
Nº 04/2007 MCT/FINEP. Mesmo assim, não foi aprovado.
“Há mais de um ano estamos buscando recursos para este
projeto, porque sabemos de sua relevância para o arranjo de
rochas. O desenvolvimento de um bom projeto também depende
do apoio de instituições públicas e privadas”,
explica a pesquisadora do Cetem, completando que ainda estão
à procura de recursos e apoio.
Herman lembra que, neste projeto, as entidades envolvidas não
pediam para o Finep bancar todo o custo. As entidades e empresas
dariam R$ 500 mil, em suportes técnico, científico
e financeiro, enquanto os recursos do governo arcariam com R$ 500
mil que faltavam. “Mesmo assim, não conseguimos os
recursos. O projeto também foi apresentado para outras instituições
públicas, em reuniões governamentais, e mais uma vez
nada aconteceu”, disse o superintendente.
O ACV já é realidade nos países concorrentes
do Brasil, como Itália, Inglaterra e Espanha. A ironia é
que, um ano depois de sua apresentação, o arranjo
de rochas se depara com o problema do radônio, com empresas
e entidades se desdobrando para dar uma resposta aos mitos que foram
criados sobre a quantidade de radônio liberado pelo granito.
“Sem dúvidas o ACV seria uma resposta para isso, pois
seu objetivo é justamente mostrar o impacto que as rochas
produzem, desde sua extração a seu descarte, bem como
demonstrar que é sim um produto seguro e ambientalmente mais
eficiente do que seus concorrentes. É importante que se olhe
com mais seriedade as idéias do setor”, diz Emic.
De acordo com o presidente do Cetemag, só no ano de 2008,
oito projetos foram apresentados às instituições
e editais públicos e apenas um conseguiu recurso. “O
que falta? Poderíamos enumerar argumentar sobre cada um,
mas não é essa a questão. O arranjo precisa
se mobilizar para cobrar contrapartida do setor público”,
explica Emic.
O presidente do Cetemag completa, falando do projeto Valorização
e Aproveitamento dos Mármores do Sul do Espírito Santo.
”Para o mapeamento da lente de mármore, a Universidade
Federal do Rio de Janeiro, através do professor Edson Farias,
conseguiu um recurso que não ultrapassa R$ 80 mil. Esse é
um projeto que já está em andamento e também
é considerado estratégico, cujo valor estimado é
de R$ 250 mil. Se não conseguirmos levantar o valor restante,
com muito esforço iremos atingir resultados abaixo do que
poderíamos atingir”, diz Emic.
Sebrae
Em meio a tanta burocracia e dificuldade, o superintendente do Cetemag
destaca a que a atuação do Sebrae tem sido positiva,
observando uma grande disposição da entidade junto
ao setor de rochas.
“Diversas ações nascem, acontecem e são
realizadas em parceria com o Sebrae. Atualmente, estão em
andamento reuniões e projetos junto com um grupo de marmorarias
de Vitória, os convênios Inteligência Competitiva
e Indicação Geográfica, em fase final de assinaturas
junto ao Cetemag, e outros projetos que caminham junto com o Sindirochas”.
Com o Cetemag, os valores destes projetos ultrapassam a casa dos
R$ 700 mil, um valor considerável para execução
dos convênios acima citados.
Gargalos
O presidente do Cetemag afirma que há muitos gargalos no
setor e que, em geral, existem projetos para solucioná-los.
No entanto, tais projetos acabam se deparando com outro gargalo:
as supostas fontes de recursos não se abrem como deveriam
ao arranjo de rochas, deixando seus projetos preteridos pelos de
outros setores.
Emic explica que o setor de rochas ornamentais, cujas exportações
fecharam o 1º semestre de 2008 com um faturamento de US$ 472,43
milhões, sendo o Espírito Santo responsável
por cerca de 65% (US$ 307 milhões), gera muita arrecadação
para o Estado e o País. “É inadmissível
que um setor que contribui tanto para movimentar a economia capixaba
e nacional não consiga recursos necessários para suprir
os entraves naturais da própria movimentação
econômica”.
O presidente completa, pedindo maior mobilização do
setor: “Para o ano de 2009, nós empresários
temos que nos mobilizar e tentar reverter este quadro. Já
passou da hora de o arranjo de rochas ornamentais receber os devidos
investimentos a fim de suprir nossos problemas”, finaliza
Emic.
Investimentos
Instituições sem fins lucrativos de todo o país
tem esbarrado no problema das contrapartidas que podem ser financeira
ou não financeira. As contrapartidas financeiras num projeto
podem significar, por exemplo, que o Governo ou autarquia entre
com 50% dos recursos financeiros e a instituição entre
com os outros 50%. O que é muito pesado, no caso do Cetemag.
Para a entidade executar entre três a quatro projetos/ano,
como esses citados, deveria ter pelo menos entre 800 e 1000 empresas
associadas, pagando a menor mensalidade, que gira em torno de R$
80,00/mês. “Daí teríamos fundos para poder
conseguir fundos públicos. O problema é que as próprias
empresas não conseguem enxergar essa conta que, no final,
beneficiaria elas mesmas” explica Herman.